Há cinco anos, a Aldeias Infantis SOS Brasil se deparou com uma crise que ameaçava os seus Programas. Por um lado, o Plano Nacional de Convivência Familiar e Comunitária (legislação que regulamenta como crianças, jovens e adolescentes devem ser cuidados) severamente restringiu o número de crianças abrigadas na Aldeias Infantis SOS existentes, enquanto por outro lado seu plano estratégico obrigava-os a crescer, exponencialmente, até 2016.
O realinhamento também criou a oportunidade para os Programas de estabelecer parcerias que permitam a Aldeias Infantis SOS Brasil crescer, apesar de restrições orçamentárias internacionais. O número de beneficiados mais do que duplicou desde 2007.
Juntando duas Aldeias
Segundo a nova legislação, as crianças só podem receber cuidados de base familiar no município de origem. Como resultado, alguns Programas SOS perderam aproximadamente 40% da sua capacidade. Quase metade de todas as Casas Lares em todo o país estava vazio.
"Não era que não havia demanda, mas nós tivemos que mover os nossos serviços para onde havia mais necessidade", disse Alberto Guimarães. "E assim começou o processo de realinhamento. Um estudo foi feito em cada Programa e um plano de ação foi estabelecido."
Em alguns Programas como o de Pedra Bonita (RJ), teve que ser realocado inteiramente. A Aldeia estava em uma área de classe alta do Rio de Janeiro, onde as crianças tinham pouco contato com a comunidade. E também era longe de escolas e outras instalações da comunidade. Quando o processo de realinhamento começou, ela estava utilizando apenas a metade de sua capacidade.
"Fechamos a operação e transferimos todas as crianças para a Aldeia Infantis SOS de Jacarepaguá, que também estava utilizando apenas parte de sua capacidade. Agora, finalmente, temos um Programa perto de sua capacidade total em Jacarepaguá", disse Alberto Guimarães. A decisão sobre o futuro da propriedade em Pedra Bonita ainda está para ser tomada, sendo uma das opções vendê-lo e usar o dinheiro para estabelecer ou expandir outros Programas.
Na Aldeia SOS de Brasília e Goioerê, as famílias deixaram os condomínios e foram transferidas para casas no município, permitindo que as crianças vivam em um ambiente de comunidade.
Onde a realocação não foi possível ou viável, os Programas foram reajustados. Um bom exemplo é a Aldeias Infantis SOS em Poá. Das 14 casas de famílias no condomínio, seis estavam vazias por mais de dois anos. Decidiu-se dividir a instalação em dois, com um lado mantendo as Casas Lares e as casas vazias e áreas comuns sendo transformadas em um centro de treinamento nacional com acomodações para até 40 pessoas.
Hoje, o Centro de Formação de Poá, com as suas instalações multimídia, é usado para o treinamento das Mães Sociais e outros funcionários, bem como workshops nacionais e internacionais, e reuniões.
Crescimento local sustentável
No plano estratégico da Aldeias Infantis SOS Brasil está estabelecido que se cresça exponencialmente até 2016. Há dois anos, a Associação Nacional decidiu que era necessário criar um fundo local para alcançar esse crescimento, com recursos provenientes do processo de realinhamento, através da venda de bens ou o estabelecimento de parcerias.
"Um dos nossos principais objetivos é crescer com sustentabilidade local. Então, para vender ou dar outra finalidade para as instalações que eram apenas parcialmente utilizadas era uma das possibilidades para estabelecer um Fundo local para o crescimento ", explicou Alberto.
A Aldeias Infantis SOS de Aracaju e um novo Programa em Maceió tem sido possível através deste Fundo. Além de parcerias estabelecidas com empresas públicas, outros dois novos Programas - localizadas em Campinas e Foz do Iguaçu - são financiadas pelo governo. As adições aumentaram o número total de Programas no Brasil para 18.
"Alcançar o nosso sonho”
O impacto positivo do realinhamento já é visível, disse Alberto. O desenvolvimento total das crianças é "maior e mais rápido" quando crescem numa família carinhosa e dentro de um ambiente de comunidade - algo que, por exemplo, estava faltando em Pedra Bonita, observou ele.
Um dos maiores desafios do realinhamento foi lidar com o impacto emocional que as alterações tiveram na equipe e nas crianças. "Tivémos que lidar com sentimentos de perda e grandes expectativas. Havia essa enorme estrutura que nós cuidamos por tanto tempo e onde todas as nossas necessidades foram supridas por muitos anos. Agora, lá não era mais o lugar adequado", disse Alberto.
"No entanto, somos motivados pelo objetivo que o nosso foco não está mais centrado nas estruturas físicas, mas nas comunidades, onde podemos fazer mais para as crianças, suas famílias e comunidades em vários locais", acrescentou. "Todas as nossas ações nos permitiram alcançar o nosso sonho de crescer com sustentabilidade local."
Sobre Alberto Guimarães
Alberto Guimarães
"Acredito plenamente no trabalho e missão da Aldeias Infantis SOS Brasil. E eu gosto de desafios e novas idéias e tecnologias sociais ", disse Alberto Guimarães, quando perguntado sobre as características pessoais que ajudaram a fazer do realinhamento da Aldeias Infantis SOS Brasil, um sucesso. Ele vem de uma grande família mesmo. Ele cresceu com três irmãos e quatro irmãs perto da praia, em São Paulo. Ele e sua esposa, Gabriela, tem duas filhas: Caroline, 20, e Paula, 8. Antes de ingressar na Aldeias Infantis SOS como gestor do Programa de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, há 17 anos, ele trabalhou em um banco e também em cargos administrativos em outras empresas. Ele tem uma licenciatura em Serviço Social e uma pós-graduação em Administração de ONGs e Responsabilidade Social e Ambiental.
REFERÊNCIA: Entrevista concedida a SOS Kinderdorf International e publicada na INTRANET em Maio/2012.