ENTREVISTA – Richard Pichler

ENTREVISTA – Richard Pichler

O Assessor Global de Relações Externas da Aldeias Infantis SOS Internacional, Richard Pichler, é um profissional ocupado. Depois de deixar o cargo de CEO em 2016 (em que estava desde 1995), hoje representa a Aldeias Infantis na Organização das Nações Unidas (ONU), na União Europeia (EU) e em grandes organismos e movimentos internacionais pela infância.

Seu objetivo é iniciar e promover a cooperação com outras organizações sociais líderes, além de criar alianças estratégicas com parceiros internacionais do setor governamental, filantrópico e corporativo, representando a Aldeias Infantis, que hoje está em 134 países no mundo.

Pichler é responsável também por processos estratégicos da Aldeias Infantis, que a posicionaram como uma das principais organizações humanitárias  focadas na criança, e que lhe proporcionou  um papel de liderança no desenvolvimento das Diretrizes das Nações Unidas para o Cuidado Alternativo das Crianças e para influenciar  os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) para incluir metas-chave para crianças em risco.

Em visita ao Brasil para o Global Child Forum, realizado em São Paulo, Pichler falou dos desafios do advocacy internacional e a da importância de espaços como o Global Child Forum para garantir o direito de crianças e adolescentes. “Os direitos já existem. Falta aplicar as leis e as políticas”, afirma.   Confira, a seguir, uma entrevista realizada com ele pela equipe da Aldeias Infantis SOS Brasil:
 
Aldeias Infantis - Qual a importância do Global Child Forum?
 

Richard Pichler - Nos últimos anos, o Global Child Forum se estabeleceu como um espaço em que se encontram os mais importantes atores globais, de organizações a indivíduos, que podem influenciar a implementação de políticas públicas pelos direitos da criança pelo mundo.

AI - Por que as estratégias da Aldeias Infantis são importantes?      

RP -
A Aldeias Infantis SOS, como uma das maiores organizações de defesa da infância, vê o Fórum como um parceiro estratégico para direcionar a implementação de um marco legal para a infância. Em nossa estratégia para 2030, um dos enfoques de atuação é o advocacy em relação aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e ao Guia de Cuidados Alternativos, ambos da ONU, o que está bastante alinhado com o os participantes do Fórum. Afinal, são organizações pares que unem forças para o mesmo fim. 

AI - Quais podem ser considerados os maiores desafios para o advocacy?

RP - Em quase todos os lugares, o grande desafio é entender quem são os públicos e qual é o poder desses diferentes públicos de interesse. Na teoria, os direitos da criança e do adolescente são garantidos mundialmente. Apenas dois países não ratificaram a Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos das Crianças, de 1989.  

O desafio está na prática e no trabalho direto. Há uma competição de interesses de diferentes setores de vida política e pública que se tornam um grande desafio para organizações como a Aldeias Infantis SOS. Como a de garantir que nós somos a voz das crianças, porque elas não são ouvidas nesses setores. 

A conquista que queremos chegar está ligada a isso. Usar toda a nossa expertise e metodologias para influenciar leis e políticas para implementação do que está garantido na teoria, assegurando que as crianças sejam ouvidas.


AI - Mas como é possível garantir que somos a voz das crianças?
RP – Essa garantia não temos como assegurar. O que podemos fazer é chegar o mais perto possível. E o mais importante nessa questão é o que torna a nossa voz legítima. A grande credibilidade da Aldeias Infantis se baseia no nosso trabalho de campo com as crianças, em conjunto com elas, e na vivência diária.

Nós avaliamos o impacto de determinada lei, ou mesmo a ausência dela, da inexistência de dados confiáveis sobre a infância em diferentes países. Se não se sabe até mesmo quantas crianças estão em risco social, com certeza a voz delas será ainda menor. 

O aumento de nossa credibilidade é importante, a partir de dados sobre a realidade da infância, porque os demais atores na arena política, em especial grupos mais conservadores, têm se fortalecido. Além disso, milhares de jovens que passaram por nossos programas, já conquistaram próprios espaços de participação. Eles são exemplos para as novas gerações.

AI – Qual é a sua análise do advocacy por aqui?
 
O que vejo no Brasil é que o advocacy já está incorporado na organização e o marco regulatório para o bem-estar da criança no país é bastante avançado, o que faz outros países se interessarem em reproduzirem modelos. Mas há aí um grande fator para analisarmos. Começamos esse trabalho de incidência política há pouco mais de 10 anos. Se o tivéssemos realizado no final da década de 1980, poderíamos ter contribuído, com o olhar da prática, um pouco mais para as crianças em vulnerabilidade.